Naquela noite meu coração batia tão forte que até as minhas pernas tremiam.
Manter o controle do pé na embreagem era mais difícil do que na época que eu nem sequer tinha carta. Fazia tempo desde a última vez que havia visto ela.
-Como ela reagiria ao me ver?
-Será que eu devo ir lá?
-Acho melhor não! O ex-namorado dela vai estar lá!
-Mas espera aí! Ela tá sozinha e faz tempo que você não vê ela! Por que não ir?
Quanto mais estas duas vozes em minha mente debatiam entre si, mais nervoso eu ficava.
Nem deu para frear o carro.
-Merda, passei o sinal vermelho.
-Merda, acho que isso é um aviso.
-Eu não tenho sinal verde para ir lá ver ela; vou procurar um bar decente pra tomar um whisky, mas lá eu não vou, não!
Tem mulheres que possuem esta capacidade, este dom de mexer com o nosso intelecto e fazer com que a gente aja baseado mais na emoção do que com a razão. E um homem dividido pela beleza de uma mulher faz coisas que só uma criança faria. Eu não sou medroso, mas aprendi que o amor pode ser mais perigoso do que brincar com fogo.
Enquanto estacionava meu carro, a lembrança do corpo dela fazia uma baliza no meu coração…e eu sorri como uma criança ao apreciar a imagem do rosto dela projetada na minha tela mental.
Mas eu não sou mais criança e o medo do embate entre razão e emoção me assombrou novamente.
Parei de sorrir, desliguei o carro, tirei a chave da ignição e fiquei ali sentado por alguns minutos.
-É melhor eu sair daqui, tomar um whisky e procurar uma outra mulher cuja existência dure só uma noite em minha vida e amanhã eu acorde sozinho de novo.
-Eu não quero responsabilidade com ninguém, nem comigo mesmo!
-Mas aquele sorriso dela te traz paz. E você precisa sentir esta paz que há tanto tempo não sente!
Me levantei, tranquei a porta do carro e caminhei em direção à festa em que ela estava.
As pernas ainda tremiam e quanto mais perto eu chegava do número 1598, mais o meu coração batia forte.
Poxa, a última vez que eu tive aquela sensação foi quando eu era criança e no meu primeiro dia de aula eu fugi da sala correndo escada abaixo.
Faltando uma esquina para chegar, eu respirei fundo e criei coragem.
Me lembrei que antes de sair de casa havia encontrado a resposta que me motivou a tomar a decisão de ir ver ela:
-Quer saber de uma coisa, vou jogar Cara e Coroa! Se sair Cara, eu dou a cara pra bater e vou lá; agora se sair Coroa, eu fico em casa.
Primeira jogada, saiu Cara!
-Tudo bem, só para garantir…melhor de três!
Segunda jogada, saiu Coroa!
Terceira jogada…
-Pombas, saiu Cara!
-Ma che, eu não acredito nesse oráculo! Ele só funciona pra se escolher entre bola ou campo, antes do ínicio das partidas de futebol.
Pensei num método mais confiável e lembrei que minha Vó costumava ler a sorte na borra do café. Mas não ia dar certo, eu não herdei este dom!
Foi então que a lembrança do meu Vô surgiu. Sempre que ele tinha uma dúvida, fazia uma prece, abria aleatoriamente a Bíblia e o primeiro versículo que ele batesse o olho, pronto…ali estaria a resposta.
Dito e feito!
“Go, eat your bread with enjoyment and drink your wine with a merry heart; for God has long ago approved what you do. Let your garments always be white; do not let oil be lacking on your head. Enjoy life with the wife whom you love” (Ecc.9:7-9)
Quando percebi já tava na entrada da festa. A fila cheia me deixou apreensivo.
10, 15, 20 minutos se passaram. Um casal chegou e tentou entrar direto, sem pegar a fila. O segurança não deixou.
A seguinte frase estampava a camisa daquele camarada “On God’s mission”.
-Deve ser um sinal, só pode ser um sinal! Eu vou ver ela e ela vai ficar feliz em me rever.
Meu coração parou de bater acelerado, minhas pernas pararam de tremer e havia chegado a minha vez de entrar na festa.
Subi em direção ao bar localizado no terraço.
-Boa noite, uma dose de Jack Daniel’s, por favor!
-Não tem!
-Jim Beam, então! Tem?
-Aham!
-Ok, uma dose sem gelo!
Dei um gole e o trago daquela bebida desceu pela minha garganta queimando e me fazendo sentir vivo…E corajoso para ir procurar aquela mulher que a tanto tempo eu não via.
Caminhei pela festa e nada de encontrar ela.
Vi seus amigos, vi outras mulheres lindas e com decotes que por um momento me fez esquecer o porque estava ali! Mas bastou outro gole para arder em meu peito a vontade de ver a única mulher que minha alma gritava em desespero em rever.
Procurei, procurei e não achei! Olhei o relógio… Quase 1 da manhã!
-Ela deve tá chegando! Exclamei enquanto tragava aquele bourbon fabricado no Kentucky.
Me lembrei do slogan daquele whisky “All choices lead you somewhere. Bold choices take you where you’re supposed to be” e do comercial estrelado pelo William Dafoe.
Sorri e tive certeza de que a melhor escolha seria estar ao lado dela. Ver ela novamente e dizer que estava com saudades.
Bebi outro gole e me aproximei da mesa de sinuca. Haviam três pessoas jogando e mais duas garotas sentadas vendo os três jogarem. Olhei para uma delas e ela percebeu que eu estava sorrindo.
Ela sorriu também e cochichou algo no ouvido da amiga.
Eu continuei sorrindo ao pensar que a qualquer momento iria ver a mulher mais linda do mundo. A mulher que me trouxe até aquele lugar naquela noite!
Quando terminei outro gole, percebi que o único lugar que eu não a havia procurado era a pista de dança. Então desci até o andar onde ficava o palco.
Cheguei ali e havia algumas pessoas dançando. Fui até o bar ao fundo. Matei a dose daquele bourbon e pedi uma Budweiser.
Não que eu gostasse desta cerveja, na verdade preferia a Serra Malte, sei lá, não porque tenha um espiríto bairrista, mas porque ela não é uma pilsen, e além do mais, tem um gosto forte, amargo e uma cor dourada quase avermelhada.
Cerveja - assim como uma mulher - tem que ter personalidade… e a Serra Malte - como ela - possui uma aura misteriosa e magnética.
Mas só tinha mesmo a Budweiser, então resolvi aceitar.
Quando estava no segundo copo eu vi o que há muito ansiava por ver.
Lá estava ela, passando pela pista de dança e vindo em direção ao bar onde eu me encontrava.
Enchi o copo.
Ela abraçou uma amiga.
Ela está vindo - pensei comigo. Virei aquele copo de uma vez só. E o enchi novamente.
Ela abraçou outra amiga e as duas começaram a dançar.
Dessa vez eu bebi lentamente só observando o movimento que o corpo dela fazia acompanhando o ritmo da música.
-Ela tá linda! Mais linda do que nunca.
Mais um gole e até tinha esquecido que estava bebendo uma Budweiser.
Mais um gole e tinha até esquecido que há uma hora atrás eu estava com o coração tremendo e me questionando se eu deveria ou não estar ali naquela festa.
Outro gole e me peguei hipnotizado por aquele corpo angelical que ela tem.
Ela ali a dançar e eu imaginando aquele pezinho dela sendo acariciado pelo meus lábios.
Enchi o copo uma vez mais e de repente…
Ela para de dançar, caminha até o bar e beija um sujeito que estava no lado oposto em que eu me encontrava.
Que destino cruel: a espuma da cerveja transbordando em meu copo pelo balcão do bar e a boca dela ali se molhando em outros lábios.
-Cara ou Coroa, né? O que eu tô fazendo aqui? Agora eu sei o significado de ter saído Cara. Eu dei a cara pra bater mas quem se machucou foi meu infantil coração. Que bastardo que sou!
Antes de terminar a cerveja, ela finalmente se aproximou do local em que eu estava!
Bom, ela não sabe que estou aqui por causa dela, então vou fingir que está tudo bem - foi o que eu pensei!
-Oi, acho que eu te conheço de algum lugar?
-Lindão, quanto tempo!
-É verdade bonita, faz muito tempo mesmo! Como vc tá?
-Bem!
-Legal!
-Me dá licença, eu já volto pra gente conversar!
-Claro, fica à vontade!
Enquanto ela se afastava, eu nem terminei de beber aquela garrafa de cerveja. Era Budweiser mesmo!
-Tenho de sair daqui! E agora!
Paguei a minha conta. Saí da festa. Cruzei a esquina e tentando me anestesiar do que acabara de acontecer, fiz silêncio pra ouvir minha consciência falar:
Às vezes ir embora pode significar mais do que ficar…era de se imaginar!
Talvez você tenha chegado tarde demais e ir embora represente só mais um outro final de capítulo;
Mas a verdade é que você veio tão cedo que ir embora da festa é apenas uma forma de esperar para que sua hora chegue!
Só que da próxima vez não vá mais jogar Cara ou Coroa!
Porque isso não é um jogo! Isso é Amor!